quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Ensaio Filosófico sobre a Beleza da Morte
A
Beleza da Morte
Da concepção pagã à cristã
José
Celso de Mello Sampaio Filho[1]
Estética
I[2]
Resumo: O presente artigo, pretende de forma simples
demonstrar a beleza da morte presente em duas diferentes concepções, cristã e
pagã. Primeiramente irei apresentar o conceito de sublime no filósofo do
primeiro século, LonginoDioníso. Em seguida farei referencia as concepções
acerca da bela morte grega em Vernant e Rennó, a partir dos poemas épicos de
Homero. Então, a partir da narrativa do Evangelista Mateus irei apresentar a
morte de Cristo, precursor do cristianismo e como podemos conceber o belo nesse
fato narrado. Farei por fim as considerações que acho necessárias intercalando
as duas concepções.
Abstract: This article intends in a simple way to demonstrate the beauty of death
present in two different conceptions, Christian and pagan. Firstly, I will
present the concept of the sublime in the first century philosopher, Longino
Dionysus. Then I will refer to the conceptions about the beautiful Greek death
in Vernant and Rennó, from the epic poems of Homer. Then, from the narrative of
the Evangelist Matthew I will present the death of Christ, precursor of
Christianity and how we can conceive the beautiful in this narrated fact. I
will finally make the considerations I think necessary by interweaving the two conceptions.
Introdução
No presente artigo queremos demonstrar
de que forma a morte pode ser concebida como bela, tanto na concepção grega
como na cristã.
Primeiro irmos entender o conceito de
sublime, para entender como a morte pode ser apreciada de forma estética. Em
seguida irei mostrar o que a bela morte para os gregos, frisando principalmente
Homero, acentuando o conceito de sublime. Então, a partir da narrativa da morte
de cristo, segundo a narração do evangelho de são Mateus.
Por fim, apresentaremos as conclusões do
trabalho inferindo as relações estéticas entre o sublime e a Bela Morte entre
gregos e cristãos.
1.
O Sublime
Irei trabalhar o conceito de Sublime no
Filósofo e crítico literário do séc. I Dioniso Longino (DionysiusLonginus), no
texto Do Sublime, um pequeno tratado escrito ao seu amigo PostúmioTerenciano.
Porém, há muita divergência de quem realmente escreveu o tratado, pois era
creditado a Cassio Longino (séc. III), mais tarde na escolástica encontrasse na
biblioteca vaticana uns escritos como, que segundo as informações era “seria de
Dionísio ou Longino”, então se ficou dividido entre esses dois filósofos,
Dionísio de Helicarnosso (séc. III) ou Cassio Longino. Depois de estudos minuciosos,
a obra ficou de Dionísio Longino, autor anônimo de vida e obra desconhecido do primeiro
século.
Para o sublime é necessário compreender
a ideia de assombro e estremecimento que exprimem os textos literários, e esse
conceito que inspira as ideias acerca do Sublime de Immanuel Kant e de Edmund
Burke. A ideia de sublime deve ser sentida a partir de uma boa obra literária.
O autor vai fazer comparações e críticas
as tragédias grega, que se enchiam de demasiadas imagens e se olhássemos uma
calma e atentamente ela se empobrecia de sentido. Então ele vai conceituar o
que é o verdadeiro sublime, aquele elemento pelo qual a alma se enche de prazer
e exaltação. Então primeiramente o que não é o sublime: “[…]não dispõe a alma a
grandeza de sentimentos, nem deixa pensamento na matéria para reflexão que vá
além do que foi dito mas, pelo contrário, à medida que se vai examinando uma
vez e outra diminui o seu valor, isso não poderá ser o verdadeiro sublime[…]”
(LOGINO, 2015, 45). Para isso, tudo aquilo que se esvazia de reflexão não pode
ser concebido como sublime, ao contrário:
[…] o verdadeiro Sublime é aquele que agrada sempre
a todos. Pois, quando acerca das mesmas coisas, pessoas diferentes nos seus
costumes, gêneros de vida, gostos, idades e linguagem emitem todos o mesmo
parecer então essa espécie de juízo consensual, proveniente de tão diferentes
pessoas confere ao objecto que se admira uma credibilidade forte e
incontestável. (LONGINO, 2015, 46)
A partir deste conceito Longino vai
definir cinco características que permitem identificar o sublime. A primeira é
a capacidade de conceber pensamentos elevados, segundo é a emoção forte e cheia
de entusiasmo, em seguida as duas são complementares e se seguem de uma figura
de linguagem necessária que é o pensamento e linguagem que levam que admira a
reflexão, por fim é a composição, ou seja, a harmonia entre todos os elementos
citados anteriormente.
Para isso ele define, “sublime é o eco
da grandeza interior” (LONGINO, 2015, 48). Para isso, a grandeza, segundo nosso
autor, é necessária uma elevação de alma, pois uma pessoa mesquinha não seria
capaz de produzir algo sublime que ficasse eternizado. Que mesmo os autores
como Homero que escreve mui preciosamente de forma sublime para Longino vai
haver uma distinção entre o Homero jovem da Ilíada e o Homero da velhice da
Odisseia.
Não é espantoso como convoca ao mesmo tempo a alma e
o corpo, os ouvidos e a língua, os olhos e a pele, como se todas estas partes
lhe fossem estranhas e estivessem perdidas? E como, em movimentos contrários,
sente frio e calor ao mesmo tempo, sai da razão e mostra sensatez – pois ora tem
medo ora está perto de morrer – de tal forma que nela se manifesta não apenas
uma emoção mas o encontro de várias emoções? Tudo isto acontece a quem ama mas,
como dizia, foi a escolha dos elementos mais extremos e a sua ligação numa
unidade que alcançou a excelência. É precisamente isto, julgo eu, que faz o
Poeta na descrição de tempestades: daquilo que lhes é próprio, escolhe os
aspectos mais terríveis. (LONGINO, 2015, 56)
Para o presente trabalho vamos
acrescentar apenas um elemento a mais no sublime, ‘ampliação’. Esse elemento
que permite pausa repentinas nos textos que em seguida nos mostram acréscimos
de elementos e esses vão se empilhado sucessivamente. Isso pode acontecer de
algumas formas, pode ser de um lugar simples ou mesmo por meio de uma hipérbole,
a figura do exagero, para nosso autor nenhum desses exageros pode chegar a
perfeição sem que se tenha o sublime. Ele demonstra que se não houver o sublime
o que nos resta é compaixão e/ou desprezo, que se retirado o sublime é como que
“arrancar a alma do corpo” (2015, 58).
Por fim, Dionísio Longino vai usar da
definição de Cícero de Demóstenes para como esse autor atinge o sublime de
forma abrupta:
O nosso pela violência, rapidez, força e veemência
com que tudo queima e devasta poderia ser comparado a um relâmpago ou a um
raio; Cícero, a meu ver, como um vasto incêndio, desenvolve-se e alastra por
toda a parte, mantendo sempre consigo um fogo intenso e constante que se vai
distribuindo por um lado e por outro e em si mesmo sucessivamente se alimenta. 5.
Mas vós podeis julgar melhor estas coisas. Contudo, o ponto exacto90 do sublime
e da intensidade demosténicos encontra-se na indignação, nas paixões violentas
e quando é preciso assombrar completamente o ouvinte; o da abundância quando é
preciso inundá-lo. Por isso este se ajusta melhor ao uso de lugares-comuns, às
perorações, às digressões, a todas as descrições e discursos de aparato, às
narrativas históricas e científicas e a muitos outros tipos de discurso.
(LONGINO, 2015, 59)
Então, se utilizado do termo grego, o
necessário para o Sublime é o Kairos o tempo oportuno, seja ele de forma
abrupta ou a partir da ampliação.
2.
A Bela Morte para os gregos
Para falar da bela morte nos gregos
vamos recorrer aos poemas épicos de Homero, a Odisseia e a Ilíada. Esses
mostram momentos de guerra e conflito entre gregos e troianos, uma carnificina
bem detalhada pelo poeta. Vamos analisar o que vai ser denominado bela morte a
partir de dois pensadores Jean-Pierre
Vernant e Teodoro Rennó Assunção.Fatos o que aqui chamamos
de bela morte, não entra em nenhum dos poemas de Homero, esse termo só irá
aparecer na oração de Péricles depois da Guerra do Peloponeso.
Em
Vernant, sua obra a bela morte e o cadáver ultrajado (1978), ele vai denominar
que morrer belamente é morrer jovem e em combate, para que seus feitos sejam
eternizados pela Estória nos poemas. Então, para nosso primeiro teórico seria
uma forma de ‘driblar’ a morte, pois na sociedade grega de fato morrer, seria o
esquecimento pela sociedade, e morrer jovem e em batalha seria ficar eternizado
nos poemas e na vida dos cidadãos da pólis.
Ultrapassa-se a morte
acolhendo-a em vez de a sofrer, tornando-a a aposta constante de uma vida
que toma, assim, valor exemplar e que os homens celebrarão como um modelo de
‘glória imorredoura’” (VERNANT, 1978, 40)
Aqui a bela morte consiste em enfrentar
o oponente de frente, sem covardia, seria uma morte feia e ultrajante matar
pelas costas quem quer que seja. Por isso seria algo enfadonho para o inimigo
uma morte que acabasse com a bela do seu corpo.
Em
contraponto a bela morte Vernatiana, teremos a concepção de Rennó, no seu
artigo denominado Nova crítica a bela morte vernantiana (1994/1995).
Então, Rennó vai dizer que a bela morte não consiste no ato de morrer bem, mas
de matar bem, e ele vai citar alguns cantos da Ilíada como: a de Heitor Canto
XXII; de Sárpedon no canto XII e a de Aquiles no Canto IX. “Que, pelo menos, obscuro não venha a morrer, inativo; hei
de fazer algo digno, que chegue ao porvir, exaltado.” (HOMERO. Ilíada, XXII, vv. 304-305).
Para Rennó a bela morte está no morto,
inimigo, pois a morte no herói na verdade é o fim de seus atos, e ele acredita
que os heróis só morrem nas Epopeias homéricas quando sua morte é de fato
necessária como a Pátroclo, um guerreiro de virtude, que vai devolver o ânimo de Aquiles na guerra, ele vá
enfrentar de forma desmedida Agamêmnon no Canto I.
Por fim, no absurdo de Matar ou Morrer
em batalhas, sendo este o fim ou a eternização de seus fatos as Guerras
narradas por Homero são carregadas de sublimidade, que nos proporcionam
contemplar a bela morte ou o belo morto, na ação de não deixar que ocorram ações
impiedosas, pois isso nos acarretaria no que Longino disse de retirar o
sentimento, e deixaria de ser sublime, mas na valorização de todo o conjunto o
sublime da vida as mortes homéricas.
3.
A bela morte cristã
Para compreender o que é a bela morte
para os cristãos iremos analisar a morte daquele que é o autor principal deste
seguimento o próprio Jesus Cristo. Há quatro narrativas referente a sua morte,
que são chamados evangelhos, como se fossem uma biografia a partir da percepção
de cada um dos autores que com ele viveram ou apenas ouviram falar dele. Em
ordem cronológica o evangelho de Marcos data da década de 70 d.C. de Mateus e
Lucas de 80 d.C. e por fim João que data do fim do primeiro século.
Iremos aqui fazer recortes da narrativa
de Mateus, que antes de sua conversão era chamado Levi e era cobrador de
impostos, chamado pelo próprio Jesus a segui-lo, é chamado de “Mateus, o publicano” (cf. Mt 9,9) ou com “Levi, filho de
Alfeu” (Mc 2,13-14),o autor, na verdade, permanece anônimo. O destinatário deste evangelho seriam os judeus
ainda não convertidos, ao cristianismo primitivo, pois o autor versa mui
fortemente sobre passagens do antigo testamento, frisando a lei e o reino dos
céus.
A narrativa da morte de Jesus se passa
no capitulo 27 do livro de Mateus, depois de uma sequência de fatos que
acarretam na prisão de Jesus. O que vamos da ênfase para contemplar o sublime
na morte de Cristo é a partir do versículo 32, momento que um certo homem que
vem da Cirene chamado pelo evangelista de Simão é obrigado a carregar o pesado
madeiro de Jesus. Depois de uma caminhada carregando a cruz e para evitar que o
condenado chegasse morto onde devia ser crucificado, houve a ajuda do Cireneu,
e então se narra:
³³chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar
do crânio. ³⁴ Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se
recusou de beber. ³⁵ Depois da haverem lhe crucificado, dividiram sua veste
entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim, a profecia do
profeta: Repartiram entre si minhas vestes e sobre meu manto lançaram a sorte
(Sl 21,19).36Sentaram-se e montaram guarda.37Por cima de sua cabeça penduraram um escrito trazendo o motivo de sua
crucificação: Este é Jesus, o rei dos judeus.38Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita
e outro à sua esquerda.39Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam:40Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti
mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!41Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam
dele:42Ele salvou a
outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz
e nós creremos nele!43Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: Eu sou
o Filho de Deus!44E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam.45Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas.46Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli,
lammásabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?47A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: Ele chama por Elias.48Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e
apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse.49Os outros diziam: Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo.50Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma.[…] sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de
Jesus e apareceram a muitas pessoas.54O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do
estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si,
possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!
A partir disso se fundamenta dentro do
cristianismo o martírio, que se segue após Cristo, ele não morre por ele, por
vontade, ou por uma causa própria, ele morre segunda a doutrina cristã para que
os que nele acreditarem serem salvos. Por isso, o martírio que fez parte da
ação profética, de incomodar os poderosos, que acarreta na morte de cristo de
uma forma atormentadora e absurda é algo a ser admirado, a forma que o
evangelista vai narrando a cena, que momentos antes do que foi citado, Ele e
despido, torturado, zombado com cuspes e murros até se desfigurar sua face.
Na face desfigurada do Cristo se enxerga
as mazelas sociais, que levam a contemplação do sublime além narrativa. De uma
forma única o desapego a vida em prol de muitos é algo que fascina, mesmo quem
não acredita, ao ler a narrativa se comove, se enche de compaixão pelo fato
ocorrido, leva a reflexão e por assim dizer a contemplação do ato da sublimidade
na paixão e morte de Jesus.
Conclusão
Há uma distância que se enxerga em ambas
as mortes belas, no ato de matar, ou morrer, para o cristianismo de doar a
vida. A contemplação do sublime é que faz destas narrativas algo fascinante.
A morte quando entranhada e
subjetividade e sublimidade é algo belo, é algo digno de contemplação. As
narrativas pagãs e cristãs sobre a morte são objetos de estremo valor e de
culto para ambas as partes.
Na concepção pagã a atitude dos
guerreiros era algo encorajado, o ato sublime da enfrentar o oponente, olho no
olho sem mesquinhes é uma atitude nobre, vimos que mais que morrer belamente é
necessário dá aos inimigos uma bela morte.
Na concepção cristã o martírio também é
algo encorajado, não se calar diante das injustiças e da opressão, mas ir até o
fim nem que isto custe a vida. Ainda na contemporaneidade temos muitos
mártires, atos que se narrados se tornam sublimes, digno de contemplação e
reflexão.
Portanto, a morte, apesar de por fim na
vida e nos feitos dos heróis ela é também os eternizam. Seja Jesus ou Aquiles,
na narrativa de suas mortes por motivos diferentes nos permitem exprimir
sensações, aisthesis, sentimentos,
que nos levam a contemplar a bela morte.
Referências
bibliográficas.
ASSUNÇÃO, Teodoro Rennó. Nota crítica à
bela morte vernantiana. Clássica, SãoPaulo, v. 7/8, 1994/1995, p. 56-62. Disponível
em:<https://classica.emnuvens.com.br/classica/article/download/659/608>
acessado em 17/06/2018
HOMERO. Ilíada. Tradução, Carlos Alberto
Nunes. São Paulo: Ediouro, 2009.
HOMERO. Ilíada – 2 vols. Tradução,
Haroldo de Campos. São Paulo: Arx, 2002/2003
LONGINO, Dionísio. Do Sublime, Tradução de
Marta Isabel de Oliveira Várzea. Annablume Editora – São Paulo 2015.
MATEUS, Evangelista. Bíblia Sagrada, 167°
edição, tradução portuguesa da versão francesa dos originais grego, hebraico e
aramaico, traduzido pelos monges beneditinos de Maredsous (Bélgica), editora
Ave-Maria – São Paulo, 2006. pp. 1320 e 1321.
VERNANT, Jean-Pierre. A bela morte e o
cadáver ultrajado. Tradução, Elisa A.Kossovitch e João. A. Hansen. Discurso,
São Paulo, Editora Ciências Humanas, n. 9,1978, p. 31-62 disponível
em:<https://www.revistas.usp.br/discurso/article/viewFile/37846/40573>
acessado em 17/06/2018
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