quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Ensaio Filosófico sobre a Beleza da Morte


A Beleza da Morte
Da concepção pagã à cristã
José Celso de Mello Sampaio Filho[1]
Estética I[2]
Resumo: O presente artigo, pretende de forma simples demonstrar a beleza da morte presente em duas diferentes concepções, cristã e pagã. Primeiramente irei apresentar o conceito de sublime no filósofo do primeiro século, LonginoDioníso. Em seguida farei referencia as concepções acerca da bela morte grega em Vernant e Rennó, a partir dos poemas épicos de Homero. Então, a partir da narrativa do Evangelista Mateus irei apresentar a morte de Cristo, precursor do cristianismo e como podemos conceber o belo nesse fato narrado. Farei por fim as considerações que acho necessárias intercalando as duas concepções.
Abstract: This article intends in a simple way to demonstrate the beauty of death present in two different conceptions, Christian and pagan. Firstly, I will present the concept of the sublime in the first century philosopher, Longino Dionysus. Then I will refer to the conceptions about the beautiful Greek death in Vernant and Rennó, from the epic poems of Homer. Then, from the narrative of the Evangelist Matthew I will present the death of Christ, precursor of Christianity and how we can conceive the beautiful in this narrated fact. I will finally make the considerations I think necessary by interweaving the two conceptions.

Introdução
No presente artigo queremos demonstrar de que forma a morte pode ser concebida como bela, tanto na concepção grega como na cristã.
Primeiro irmos entender o conceito de sublime, para entender como a morte pode ser apreciada de forma estética. Em seguida irei mostrar o que a bela morte para os gregos, frisando principalmente Homero, acentuando o conceito de sublime. Então, a partir da narrativa da morte de cristo, segundo a narração do evangelho de são Mateus.
Por fim, apresentaremos as conclusões do trabalho inferindo as relações estéticas entre o sublime e a Bela Morte entre gregos e cristãos.
1.      O Sublime
Irei trabalhar o conceito de Sublime no Filósofo e crítico literário do séc. I Dioniso Longino (DionysiusLonginus), no texto Do Sublime, um pequeno tratado escrito ao seu amigo PostúmioTerenciano. Porém, há muita divergência de quem realmente escreveu o tratado, pois era creditado a Cassio Longino (séc. III), mais tarde na escolástica encontrasse na biblioteca vaticana uns escritos como, que segundo as informações era “seria de Dionísio ou Longino”, então se ficou dividido entre esses dois filósofos, Dionísio de Helicarnosso (séc. III) ou  Cassio Longino. Depois de estudos minuciosos, a obra ficou de Dionísio Longino, autor anônimo de vida e obra desconhecido do primeiro século.
Para o sublime é necessário compreender a ideia de assombro e estremecimento que exprimem os textos literários, e esse conceito que inspira as ideias acerca do Sublime de Immanuel Kant e de Edmund Burke. A ideia de sublime deve ser sentida a partir de uma boa obra literária.
O autor vai fazer comparações e críticas as tragédias grega, que se enchiam de demasiadas imagens e se olhássemos uma calma e atentamente ela se empobrecia de sentido. Então ele vai conceituar o que é o verdadeiro sublime, aquele elemento pelo qual a alma se enche de prazer e exaltação. Então primeiramente o que não é o sublime: “[…]não dispõe a alma a grandeza de sentimentos, nem deixa pensamento na matéria para reflexão que vá além do que foi dito mas, pelo contrário, à medida que se vai examinando uma vez e outra diminui o seu valor, isso não poderá ser o verdadeiro sublime[…]” (LOGINO, 2015, 45). Para isso, tudo aquilo que se esvazia de reflexão não pode ser concebido como sublime, ao contrário:
[…] o verdadeiro Sublime é aquele que agrada sempre a todos. Pois, quando acerca das mesmas coisas, pessoas diferentes nos seus costumes, gêneros de vida, gostos, idades e linguagem emitem todos o mesmo parecer então essa espécie de juízo consensual, proveniente de tão diferentes pessoas confere ao objecto que se admira uma credibilidade forte e incontestável. (LONGINO, 2015, 46)
A partir deste conceito Longino vai definir cinco características que permitem identificar o sublime. A primeira é a capacidade de conceber pensamentos elevados, segundo é a emoção forte e cheia de entusiasmo, em seguida as duas são complementares e se seguem de uma figura de linguagem necessária que é o pensamento e linguagem que levam que admira a reflexão, por fim é a composição, ou seja, a harmonia entre todos os elementos citados anteriormente.
Para isso ele define, “sublime é o eco da grandeza interior” (LONGINO, 2015, 48). Para isso, a grandeza, segundo nosso autor, é necessária uma elevação de alma, pois uma pessoa mesquinha não seria capaz de produzir algo sublime que ficasse eternizado. Que mesmo os autores como Homero que escreve mui preciosamente de forma sublime para Longino vai haver uma distinção entre o Homero jovem da Ilíada e o Homero da velhice da Odisseia.
Não é espantoso como convoca ao mesmo tempo a alma e o corpo, os ouvidos e a língua, os olhos e a pele, como se todas estas partes lhe fossem estranhas e estivessem perdidas? E como, em movimentos contrários, sente frio e calor ao mesmo tempo, sai da razão e mostra sensatez – pois ora tem medo ora está perto de morrer – de tal forma que nela se manifesta não apenas uma emoção mas o encontro de várias emoções? Tudo isto acontece a quem ama mas, como dizia, foi a escolha dos elementos mais extremos e a sua ligação numa unidade que alcançou a excelência. É precisamente isto, julgo eu, que faz o Poeta na descrição de tempestades: daquilo que lhes é próprio, escolhe os aspectos mais terríveis. (LONGINO, 2015, 56)
Para o presente trabalho vamos acrescentar apenas um elemento a mais no sublime, ‘ampliação’. Esse elemento que permite pausa repentinas nos textos que em seguida nos mostram acréscimos de elementos e esses vão se empilhado sucessivamente. Isso pode acontecer de algumas formas, pode ser de um lugar simples ou mesmo por meio de uma hipérbole, a figura do exagero, para nosso autor nenhum desses exageros pode chegar a perfeição sem que se tenha o sublime. Ele demonstra que se não houver o sublime o que nos resta é compaixão e/ou desprezo, que se retirado o sublime é como que “arrancar a alma do corpo” (2015, 58).
Por fim, Dionísio Longino vai usar da definição de Cícero de Demóstenes para como esse autor atinge o sublime de forma abrupta:
O nosso pela violência, rapidez, força e veemência com que tudo queima e devasta poderia ser comparado a um relâmpago ou a um raio; Cícero, a meu ver, como um vasto incêndio, desenvolve-se e alastra por toda a parte, mantendo sempre consigo um fogo intenso e constante que se vai distribuindo por um lado e por outro e em si mesmo sucessivamente se alimenta. 5. Mas vós podeis julgar melhor estas coisas. Contudo, o ponto exacto90 do sublime e da intensidade demosténicos encontra-se na indignação, nas paixões violentas e quando é preciso assombrar completamente o ouvinte; o da abundância quando é preciso inundá-lo. Por isso este se ajusta melhor ao uso de lugares-comuns, às perorações, às digressões, a todas as descrições e discursos de aparato, às narrativas históricas e científicas e a muitos outros tipos de discurso. (LONGINO, 2015, 59)
Então, se utilizado do termo grego, o necessário para o Sublime é o Kairos o tempo oportuno, seja ele de forma abrupta ou a partir da ampliação.
2.      A Bela Morte para os gregos
Para falar da bela morte nos gregos vamos recorrer aos poemas épicos de Homero, a Odisseia e a Ilíada. Esses mostram momentos de guerra e conflito entre gregos e troianos, uma carnificina bem detalhada pelo poeta. Vamos analisar o que vai ser denominado bela morte a partir de dois pensadores Jean-Pierre Vernant e Teodoro Rennó Assunção.Fatos o que aqui chamamos de bela morte, não entra em nenhum dos poemas de Homero, esse termo só irá aparecer na oração de Péricles depois da Guerra do Peloponeso.
Em Vernant, sua obra a bela morte e o cadáver ultrajado (1978), ele vai denominar que morrer belamente é morrer jovem e em combate, para que seus feitos sejam eternizados pela Estória nos poemas. Então, para nosso primeiro teórico seria uma forma de ‘driblar’ a morte, pois na sociedade grega de fato morrer, seria o esquecimento pela sociedade, e morrer jovem e em batalha seria ficar eternizado nos poemas e na vida dos cidadãos da pólis.
Ultrapassa-se a morte acolhendo-a em vez de a sofrer, tornando-a a aposta constante de uma vida que toma, assim, valor exemplar e que os homens celebrarão como um modelo de ‘glória imorredoura’” (VERNANT, 1978, 40)
Aqui a bela morte consiste em enfrentar o oponente de frente, sem covardia, seria uma morte feia e ultrajante matar pelas costas quem quer que seja. Por isso seria algo enfadonho para o inimigo uma morte que acabasse com a bela do seu corpo.
Em contraponto a bela morte Vernatiana, teremos a concepção de Rennó, no seu artigo denominado Nova crítica a bela morte vernantiana (1994/1995). Então, Rennó vai dizer que a bela morte não consiste no ato de morrer bem, mas de matar bem, e ele vai citar alguns cantos da Ilíada como: a de Heitor Canto XXII; de Sárpedon no canto XII e a de Aquiles no Canto IX. “Que, pelo menos, obscuro não venha a morrer, inativo; hei de fazer algo digno, que chegue ao porvir, exaltado.” (HOMERO. Ilíada, XXII, vv. 304-305).
Para Rennó a bela morte está no morto, inimigo, pois a morte no herói na verdade é o fim de seus atos, e ele acredita que os heróis só morrem nas Epopeias homéricas quando sua morte é de fato necessária como a Pátroclo, um guerreiro de virtude, que vai  devolver o ânimo de Aquiles na guerra, ele vá enfrentar de forma desmedida Agamêmnon no Canto I.
Por fim, no absurdo de Matar ou Morrer em batalhas, sendo este o fim ou a eternização de seus fatos as Guerras narradas por Homero são carregadas de sublimidade, que nos proporcionam contemplar a bela morte ou o belo morto, na ação de não deixar que ocorram ações impiedosas, pois isso nos acarretaria no que Longino disse de retirar o sentimento, e deixaria de ser sublime, mas na valorização de todo o conjunto o sublime da vida as mortes homéricas.
3.      A bela morte cristã
Para compreender o que é a bela morte para os cristãos iremos analisar a morte daquele que é o autor principal deste seguimento o próprio Jesus Cristo. Há quatro narrativas referente a sua morte, que são chamados evangelhos, como se fossem uma biografia a partir da percepção de cada um dos autores que com ele viveram ou apenas ouviram falar dele. Em ordem cronológica o evangelho de Marcos data da década de 70 d.C. de Mateus e Lucas de 80 d.C. e por fim João que data do fim do primeiro século.
Iremos aqui fazer recortes da narrativa de Mateus, que antes de sua conversão era chamado Levi e era cobrador de impostos, chamado pelo próprio Jesus a segui-lo, é chamado de “Mateus, o publicano” (cf. Mt 9,9) ou com “Levi, filho de Alfeu” (Mc 2,13-14),o autor, na verdade, permanece anônimo. O destinatário deste evangelho seriam os judeus ainda não convertidos, ao cristianismo primitivo, pois o autor versa mui fortemente sobre passagens do antigo testamento, frisando a lei e o reino dos céus.
A narrativa da morte de Jesus se passa no capitulo 27 do livro de Mateus, depois de uma sequência de fatos que acarretam na prisão de Jesus. O que vamos da ênfase para contemplar o sublime na morte de Cristo é a partir do versículo 32, momento que um certo homem que vem da Cirene chamado pelo evangelista de Simão é obrigado a carregar o pesado madeiro de Jesus. Depois de uma caminhada carregando a cruz e para evitar que o condenado chegasse morto onde devia ser crucificado, houve a ajuda do Cireneu, e então se narra:
³³chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar do crânio. ³⁴ Deram-lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas se recusou de beber. ³⁵ Depois da haverem lhe crucificado, dividiram sua veste entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim,  a profecia do profeta: Repartiram entre si minhas vestes e sobre meu manto lançaram a sorte (Sl 21,19).36Sentaram-se e montaram guarda.37Por cima de sua cabeça penduraram um escrito trazendo o motivo de sua crucificação: Este é Jesus, o rei dos judeus.38Ao mesmo tempo foram crucificados com ele dois ladrões, um à sua direita e outro à sua esquerda.39Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam:40Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!41Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele:42Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!43Confiou em Deus, Deus o livre agora, se o ama, porque ele disse: Eu sou o Filho de Deus!44E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam.45Desde a hora sexta até a nona, cobriu-se toda a terra de trevas.46Próximo da hora nona, Jesus exclamou em voz forte: Eli, Eli, lammásabactáni? - o que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?47A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam: Ele chama por Elias.48Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-lha na ponta de uma vara para que bebesse.49Os outros diziam: Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo.50Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma.[…]  sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.54O centurião e seus homens que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo o que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor: Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!
A partir disso se fundamenta dentro do cristianismo o martírio, que se segue após Cristo, ele não morre por ele, por vontade, ou por uma causa própria, ele morre segunda a doutrina cristã para que os que nele acreditarem serem salvos. Por isso, o martírio que fez parte da ação profética, de incomodar os poderosos, que acarreta na morte de cristo de uma forma atormentadora e absurda é algo a ser admirado, a forma que o evangelista vai narrando a cena, que momentos antes do que foi citado, Ele e despido, torturado, zombado com cuspes e murros até se desfigurar sua face.
Na face desfigurada do Cristo se enxerga as mazelas sociais, que levam a contemplação do sublime além narrativa. De uma forma única o desapego a vida em prol de muitos é algo que fascina, mesmo quem não acredita, ao ler a narrativa se comove, se enche de compaixão pelo fato ocorrido, leva a reflexão e por assim dizer a contemplação do ato da sublimidade na paixão e morte de Jesus.
Conclusão
Há uma distância que se enxerga em ambas as mortes belas, no ato de matar, ou morrer, para o cristianismo de doar a vida. A contemplação do sublime é que faz destas narrativas algo fascinante.
A morte quando entranhada e subjetividade e sublimidade é algo belo, é algo digno de contemplação. As narrativas pagãs e cristãs sobre a morte são objetos de estremo valor e de culto para ambas as partes.
Na concepção pagã a atitude dos guerreiros era algo encorajado, o ato sublime da enfrentar o oponente, olho no olho sem mesquinhes é uma atitude nobre, vimos que mais que morrer belamente é necessário dá aos inimigos uma bela morte.
Na concepção cristã o martírio também é algo encorajado, não se calar diante das injustiças e da opressão, mas ir até o fim nem que isto custe a vida. Ainda na contemporaneidade temos muitos mártires, atos que se narrados se tornam sublimes, digno de contemplação e reflexão.
Portanto, a morte, apesar de por fim na vida e nos feitos dos heróis ela é também os eternizam. Seja Jesus ou Aquiles, na narrativa de suas mortes por motivos diferentes nos permitem exprimir sensações, aisthesis, sentimentos, que nos levam a contemplar a bela morte.

Referências bibliográficas.
ASSUNÇÃO, Teodoro Rennó. Nota crítica à bela morte vernantiana. Clássica, SãoPaulo, v. 7/8, 1994/1995, p. 56-62. Disponível em:<https://classica.emnuvens.com.br/classica/article/download/659/608> acessado em 17/06/2018
HOMERO. Ilíada. Tradução, Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Ediouro, 2009.
HOMERO. Ilíada – 2 vols. Tradução, Haroldo de Campos. São Paulo: Arx, 2002/2003
LONGINO, Dionísio. Do Sublime, Tradução de Marta Isabel de Oliveira Várzea. Annablume Editora – São Paulo 2015.
MATEUS, Evangelista. Bíblia Sagrada, 167° edição, tradução portuguesa da versão francesa dos originais grego, hebraico e aramaico, traduzido pelos monges beneditinos de Maredsous (Bélgica), editora Ave-Maria – São Paulo, 2006. pp. 1320 e 1321.
VERNANT, Jean-Pierre. A bela morte e o cadáver ultrajado. Tradução, Elisa A.Kossovitch e João. A. Hansen. Discurso, São Paulo, Editora Ciências Humanas, n. 9,1978, p. 31-62 disponível em:<https://www.revistas.usp.br/discurso/article/viewFile/37846/40573> acessado em 17/06/2018




[1] Discente do 5° período do curso de Filosofia – UFAM, celso.atz@gmail.com.
[2] Disciplina obrigatória do 5° período do curso de Filsofia – UFAM, ministrada pelo Prof. Dr. Sagid Salles